A Separação: a ética em questão

•2012/03/31 • Deixe um comentário

Vera Warchavchik

A Separação é um ótimo filme político e uma bela aula de ética.  Nela o roteirista e diretor Asghar Farhadi retrata um pequeno grupo de personagens que vivem uma sucessão de impasses que levam à impossibilidade do convívio, apesar dos contínuos esforços na busca da reconciliação e do entendimento.  Vemos encenada com intensa verossimilhança a difícil interação de sujeitos de diferentes estratos sociais, que se encontram e desencontram provocando crises entre si e em si, sem cair em estereotipias sociológicas e psicológicas.  Surgem na tela com tanta verossimilhança que esquecemos tratar-se de atores; vemos personagens insuportavelmente humanos em busca de sentido para suas vivências, imersos nas contradições, insuficiências e obscuridades de sua subjetividade e de seu tempo.

O filme, tenso, se equilibra sobre um fio de navalha, onde assistimos o empenho pela aproximação e o entendimento que, no entanto, só reafirma a insuperável distância e a crescente incompreensão. Com insuportável realismo vemos encenada a fábula do porco-espinho de Schopenhauer: a separação mata, a aproximação fere.  As diferenças que de início se infiltram e corroem a esfera doméstica, deflagrando um processo de divórcio, se amplia e se propaga demonstrando sua real dimensão social.  O final do filme não oferece qualquer síntese redentora; num lance genial, o filme é interrompido, deixando o espectador em suspense, tão desamparado e inquieto quanto os personagens da tela.

No julgamento do divórcio que inaugura o filme, um casal explicita para um juiz sem rosto o porquê de não poderem permanecer casados.  A filha – ponto nodal de toda a trama – é ao mesmo tempo o impedimento ao divórcio e a razão deste, sendo a destinatária comum de dois projetos de vida incompatíveis: a mãe quer levá-la para o Ocidente, na crença de que ela terá um futuro melhor, e o pai quer que ela permaneça no Irã e, como ele, honre suas raízes.  Surge então o impasse: qual desses caminhos é o melhor para ela? Quem abrirá mão de seu projeto?  O juiz tem pouco a oferecer e os pais, fiéis a seus ideais, optam pela separação informal, enquanto aguardam por uma solução definitiva.

É, portanto, a impossibilidade de síntese entre anseios, projetos de vida, valores e ideais que redunda na separação, e não qualquer desilusão amorosa.  De imediato somos colocados perante sujeitos francos que não se omitem frente aos próprios desejos nem mascaram suas diferenças e conflitos.  Não se trata, portanto, de uma família disfuncional ou neurótica, mas, ao contrario, de sujeitos que zelam por seus desejos, inventam seu futuro e realizam seus ideais, sem recuar diante dos inevitáveis conflitos gerados.

Consumada a separação, faz-se necessário contratar uma diarista para realizar os serviços domésticos. Coloca-se em cena uma segunda família, levando à segunda potência o drama inicial.  Novamente o convívio se mostra impossível, apesar da comunidade histórica e lingüística e da dependência mútua que os une.  Acrescenta-se agora às diferenças de geração, de gênero, e de apego à tradição, presentes na situação inicial do divórcio, diferenças socioeconômicas e religiosas. Passa a imperar o desentendimento, a desconfiança, a ofensa, o sentimento mútuo de dano, fomentando ao mesmo tempo o empenho desesperado para se fazer ouvir e reconhecer num mundo que se mostra cada vez mais fraturado, obscuro, tenso e desconcertante.

Esse grupo de oito personagens, que por vezes se apóia em outros secundários, retrata com grande agudeza alguns dos vários “Irãs” existentes.  Nós, ocidentais, tendemos a imaginar o Irã como um bloco opaco, homogêneo em si, enquanto o filme o retrata em toda sua complexidade, multifacetado, estratificado, atravessado por múltiplas temporalidades e mais ou menos permeável aos processos de globalização.  Coloca-se então a questão: a despeito de todas as críticas que possamos ter ao regime político do Irã, será que a visão monolítica do país, tão difundida na imprensa e sobreinvestida politicamente, não se origina na experiência de Unheimlich (sinistro) que, como demonstra Freud, recobre nossas experiências de encontro com o Outro?

A separação que inaugura o filme se repete então no rompimento do vínculo empregatício.  Tudo se aborta, tudo entra em crise; a cizânia se alastra e tudo se desestabiliza.  A filha, depositária dos sonhos de seus pais, se ressente da mãe e desconfia do pai.  Ao mesmo tempo, todos se esforçam para se fazer ouvir, para mostrar ter agido de boa fé e, não sendo onipotentes, experimentam momentos de hesitação e dúvida.  Sucedem-se vozes e olhares dirigidos a juízes interessados, mas sempre insuficientes, capazes de abalar as certezas e perfurar as acusações, mas nunca de proferir a sentença, pedindo sempre novas provas e sinalizando que a Verdade, ansiada por todos, se encontra mais além.

O espectador também não é poupado, não ocupando o lugar da testemunha onisciente, exterior à trama dos eventos.  Os fatos que assiste se desdobram continuamente, revelando facetas não vistas, motivações ocultas, dimensões inesperadas.  Este se vê tão impotente quanto os juízes, ouvindo os relatos, concordando ora com um, ora com outro, desconfiando de todos e angustiado com a solução que nunca chega.  Percebemos, aflitos, que todos têm razão – e, portanto, que ninguém a tem.

Assistimos assim a glória e a miséria da modernidade, onde os sujeitos precisam continuamente se inventar, sendo autores de si.  A tradição já não ampara, sendo apenas um modelo possível, sem potência para designar posições ou oferecer ideais e modos de vida para realizá-los.  Vemos, nos diversos “Irãs” retratados no filme, a presença da tradição, ora como obstáculo, ora como amparo, insuficiente em diferentes graus para garantir o ato, impedir a dúvida e afastar o desalento.  Na contemporaneidade somos condenados a ser livres, parafraseando Sartre – temos de nos fazer, escolher ideais e criar modos de realizá-los, sendo muitas vezes o próprio juiz dessas realizações, já que o reconhecimento social é ambíguo e sempre incerto.

Nessa trama de desamparo esboçam-se parcerias temporárias, tecidas com enorme esforço, entre as mulheres e entre as crianças, que conseguem encontrar empatia onde prevalece a diferença. Por meio dessas pequenas parceiras os protagonistas exaustos visam realizar alguma formação de compromisso para interromper a escalada de acusações.  Aqui o filme parece ecoar o mito moderno que valoriza a mulher como o agente do entendimento e da negociação, aspecto importante da falência do Pai na contemporaneidade.  Mas mesmo esse esforço é vão; o acordo costurado pelas mulheres é instável e se rompe antes mesmo de consumado.

Como fazer então, para interromper esse circuito infernal?  Essa parece ser a questão colocada pelo filme: será possível construir uma nova saída ética, diferente daquelas ensaiadas no filme?  A impossibilidade do entendimento, do acordo, ou mesmo da sentença, talvez decorra do fato dessas visarem anular a alteridade dos agentes em conflito, não a reconhecendo como inexorável, numa sociedade dividida.  Tudo parece se organizar em torno da idéia de uma Razão, Verdade ou Justiça últimas, que dissolveriam os conflitos entre os sujeitos que, embora díspares,  deveriam equiparar-se enquanto cidadãos e compor uma sociedade homogênea, onde as diferenças só existiriam enquanto negatividade.  Esta Razão, Verdade ou Justiça são procuradas no plano dos eventos, fazendo do juiz uma espécie de árbitro habilitado a localizá-las e assim enunciar quem está com a razão e quem com a desrazão.  O que não se considera é a possibilidade destas não se encontrarem em alguma parte, tendo de ser construídas e realizadas a partir do reconhecimento e da legitimação das diferentes razões em jogo – razões  que não se harmonizam nem se anulam, já que sustentadas por sujeitos em diferentes posições dentro de uma sociedade em crise, fragmentada e em luta.  Paradoxalmente, foi o não reconhecimento das diferenças nessa dimensão estrutural, e não conjuntural, que lançou a todos numa exasperante espiral de desentendimento. O repuxo para o “centro”, impulsionado pela denegação da diferença só acirrou o desejo de reconhecimento e de afirmação de si, gerando uma força centrífuga proporcional ao empuxo contrário, numa dinâmica exasperante e desconcertante para todos.

Neste ponto de vista, a solução ética só poderia advir da aceitação da alteridade, ou seja, do reconhecimento pleno de que a sociedade não é una e sim composta por sujeitos internamente clivados (como demonstra Freud), que ocupam posições desiguais no jogo de forças que compõe o campo social, e que se agrupam em coletividades que também encerram contradições, compondo assim um todo heterogêneo e instável onde os conflitos são inerentes.  A solução não poderia ser sintética, portanto, e sim analítica; e a aproximação só poderia resultar da escolha ética movida pelo desejo de criar laços, por meio de fios flexíveis e sempre singulares, que não denegassem a alteridade dos sujeitos em conflito.

O filme revela assim toda sua dimensão política, apontando a necessidade de aprendermos a suportar a alteridade e a costurar entendimentos, não anulando a diferença de partida por um olhar onde esta é pura negatividade, resultando da incompreensão ou da má fé.  Esta “lição”, que poderia servir aos protagonistas do filme, cabe também a nós, e a nossas relações com o Irã e o mundo árabe.  O entendimento só poderá advir quando aprendermos a reconhecer e suportar o Outro.

No final do filme, retorna-se ao julgamento do divórcio, mas, desta vez, cabe à filha do casal dizer qual futuro escolherá.  Opera-se aqui um deslocamento importante: não estamos mais no plano onde o juiz deve enunciar quem tem razão, e sim no plano da escolha.  Repetidas vezes ouvimos a filha dizer que já tomou sua decisão, mas essa nunca é enunciada para nós, que vemos, aflitos, o término do filme antes de seu fechamento.  Nesse momento evidencia-se que de fato é a filha o pivô de toda a trama; a geração futura já definiu a sua escolha, e esta definirá o tempo vindouro, mesmo que este ainda permaneça inaudível para nós, presos que somos ao tempo presente.  Quais dos vários Irãs prevalecerão, quantos outros poderão ainda ser inventados, quais ninhos da serpente estão sendo gestados, quais alianças estão sendo tecidas?  E quanto à filha da diarista:  qual será sua posição frente a tudo que testemunhou?

Seja quais forem as respostas, elas já estão dadas – mas ainda não se oferecem para nós.

E nós, no Ocidente?  Qual será o futuro que já escolhemos, mas ainda desconhecemos?  Haverá lugar legítimo nele para o Outro?

Vera Warchavchik é filósofa e psicanalista, docente e membro do
Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae

Tel: 3812-1753
veraw@uol.com.br

Comentário de Estanislau Alves da Silva Filho ao Texto de Emir Tomazelli

•2012/03/26 • 1 Comentário

Então, se prestarmos atenção a estes reflexos axiais sobre o grupo, possivelmente consigamos aperceber a continuassemelhança que encontra-se nos pensamentos winnicottianos que se seguem. Esta é a expectativa. Este é o vislumbre que se pode esperar como sendo indicativo da existência de um transsentido bom e capaz de manter os vértices coerentes, permitindo que se estabeleçam linguagens coletivamente singulares.

“Ninguém pode dizer como você deve viver sua vida ou o que deve pensar ou que língua deve falar. Portanto, é absolutamente essencial que o analista forje para si a língua que ele conhece, que sabe como usar, e cujo valor reconhece.” – W. R. Bion

“Venha ao mundo com criatividade, crie o mundo; é apenas o que você cria o que possui significado para você. Para a maior parte das pessoas esta última parte é que deve ser encontrada e posta em prática.” – D. W. Winnicott

-1-

La normalidad, o salud, es una cuestión de madurez, y no de ausencia de síntomas. (O maduro é ativo; o imaturo é reativo) Al psiquiatra le interesa el desarrollo emocional del individuo; en su campo de actividad, la enfermedad y la inmadurez son términos casi equivalentes.

Madurez adulta

La posibilidad de sentirse ciudadano del mundo representa un logro extraordinario y único en el desarrollo del individuo, rara vez compatible con la salud personal o con la ausencia de depresión. Aparte de algunos ejemplos aislados, los adultos maduros gozan de salud sobre la base de su pertenencia a un grupo dentro del grupo total, y cuanto menor es el tamaño de aquél, menos apropiado resulta calificarlos de maduros. Así, hay quienes disfrutan de salud, pero dentro de un grupo limitado, y quienes tienden al grupo más amplio y quedan expuestos a la enfermedad.

(D.W.W. – Formulación teórica del campo de la psiquiatría infantil (1958))

-2-

[...] Los grupos y la psicología de los grupos constituyen un tema muy amplio, del que he seleccionado una tesis central: la base de la psicología grupal es la psicología individual, y en particular la de la integración personal del individuo. [...] En condiciones normales, esperamos que el individuo llegue gradualmente a identificarse con grupos cada vez más amplios, sin perder su propia identidad ni su espontaneidad individual. Si el grupo es demasiado grande, el individuo quedará aislado; y si es demasiado restringido, perderá su sensación de pertenecer a una comunidad. Nos esforzamos enormemente por ofrecer ampliaciones graduales del significado de la palabra grupo cuando tratamos de crear clubes y otras organizaciones adecuadas para los adolescentes, y juzgamos los resultados en la medida en que cada niño llega a identificarse sucesivamente con los diversos grupos sin experimentar una pérdida excesiva de su individualidad. Organizamos asociaciones de niños exploradores y guías para los preadolescentes, con sus correspondientes divisiones infantiles para niños de 8 a 11 años, o sea aquellos que están atravesando el período de latencia. La escuela primaria constituye una ampliación y una prolongación del hogar. [...]

La formación de grupos

Hemos llegado a la etapa de una unidad humana integrada y, al mismo tiempo, la de alguien que podríamos llamar la madre que proporciona protección, y que conoce muy bien el estado paranoide inherente a esa nueva integración. Confío en que lo que quiero decir resultará claro si utilizo los términos “unidad individual” y “protección materna”.

Los grupos pueden originarse en cualquiera de los dos extremos implícitos en estos términos:

i) Unidades superpuestas.

ii) Protección. (Na tradução brasileira: protección = “cobertura”)

i) La base de la formación grupal madura es la multiplicación de unidades individuales. Diez personas, todas ellas bien integradas, superponen sus diez integraciones y, en cierta medida, comparten una membrana demarcatoria. Dicha membrana representa ahora la piel de cada miembro individual. La organización que cada individuo aporta en términos de integración personal tiende a mantener desde adentro la entidad grupal, lo cual significa que el grupo se beneficia con la experiencia personal de los individuos, cada uno de los cuales ha sido cuidado durante el momento de la integración y protegido hasta alcanzar la capacidad de protegerse a sí mismo.

La integración del grupo implica al comienzo cierta amenaza de persecución, por lo cual cierto tipo de persecución puede producir en forma artificial la formación de un grupo, pero no de naturaleza estable.

ii) En el otro extremo, un conjunto de personas relativamente no integradas puede recibir protección, y ello da lugar a que se forme un grupo. Aquí el funcionamiento grupal no nace de la acción de los individuos sino de la protección. Los individuos pasan por tres etapas:

a) Se alegran de recibir protección y adquieren confianza. b) Comienzan a explotar la situación, se vuelven dependientes y hacen una regresión a la etapa de no integración. c) Cada uno de ellos por su cuenta comienza a alcanzar cierta integración, y en esas circunstancias utiliza la protección que le ofrece el grupo y que necesita debido a sus temores de persecución. Los mecanismos de protección se ven sometidos a un tremendo esfuerzo. Algunos de estos individuos alcanzan la integración personal y están así en condiciones de pasar al otro tipo de grupo, en el que los individuos mismos instrumentan el funcionamiento grupal. Otros no pueden curarse con la terapia de protección únicamente, y siguen necesitando ser manejados por una institución pero sin identificarse con ella.

Al examinar un grupo es posible determinar cuál de los extremos predomina. La palabra “democracia” se utiliza para describir el agrupamiento más maduro, y la democracia sólo puede aplicarse a un conjunto de personas adultas en el que la gran mayoría ha alcanzado integración personal, además de ser maduras en otros sentidos.

Los grupos adolescentes pueden alcanzar cierto grado de democracia bajo supervisión, pero es un error esperar que la democracia madure entre los adolescentes, aun mando cada uno de ellos sea maduro. En el caso de niños sanos, la protección debe ser manifiesta, al tiempo que se proporciona a los individuos todas las oportunidades necesarias para que contribuyan a la cohesión grupal mediante el empleo de las mismas fuerzas que promueven la cohesión en las estructuras yoicas individuales. El grupo limitado favorece la contribución individual.

(D.W.W. – Las influencias grupales y el niño inadaptado: el aspecto escolar (1955))

-3-

Espero no caer en el error de suponer que un individuo puede ser evaluado sin tomar en consideración el lugar que ocupa en la sociedad. La madurez del individuo implica un movimiento hacia la independencia, pero la independencia no existe. No sería saludable que un individuo fuera tan retraído como para sentirse independiente e invulnerable. Si hay alguien con esas características, sin duda es dependiente. Dependiente de una enfermera psiquiátrica o de su familia.

(D.W.W. – El concepto de individuo sano (1967))

Para outro questionamento sobre os grupos:

Grupos ninhos x Grupos devoradores? Interessante! Me faz pensar na ideia de fenótipo estendido e a tática reprodutiva dos cucos. Cucos não constrõem ninhos; colocam seus ovos em ninhos de outras espécies de pássaros. Os pais adotivos chocam e criam o filhote de cuco. Mas as estratégias evolutivas não acabam aí: em primeiro lugar, o cuco possui um período de incubação bastante curto, por isso nasce antes que os irmãos adotivos, e, logo que nasce, atira todos os outros ovos para fora do ninho, um de cada vez, para que tenha toda atenção dos pais adotivos para si; em segundo lugar, o cuco também realiza uma “diabólica chantagem infantil”, gritando alto e sem parar com vistas a atrair “deliberadamente” predadores ao ninho, apenas parando no caso de ser alimentado (assim o filhote obtém uma quantidade de alimento superior à sua cota). Outras espécies de pássaros fazem a mesma coisa (“Os honeyguides, tais como os cucos, colocam seus ovos nos ninhos de outras espécies. O filhote nasce equipado com um bico curvo e afiado. Logo que eclode, cego ainda, sem penas e totalmente indefeso, apunhala seus irmãos adotivos até a morte. Com os irmãos mortos, ele não terá competidores pelo alimento.”), e alguns lagartos também; no caso destes últimos, os pais-pássaros adotivos cuidam do ovo-lagarto que ao nascer pode até mesmo, além dos irmãos, acabar devorando os pais. Dawkins chama isso de fenótipo estendido* por conta de os genes de uma espécie fazerem uso direto do fenótipo de outra espécie; o que, em outras palavras, pode significar aproveitamento usurpador e especializado do altruísmo cego (os pais adotivos cuidam e criam como se fossem realmente seus ovos-filhotes).

* Em biologia, a herança genética de um indivíduo é chamada genótipo, enquanto a “aparência física” é chamada fenótipo. Dawkins estabeleceu um postulado que associava o organismo ao artefato (objeto útil produzido pelo organismo) ligado ao código genético do organismo, chamando essa associação de fenótipo estendido. Levando adiante seu conceito para além da associação organismo-artefato, incluiu também a família do organismo, o seu grupo social e todos os instrumentos e ambientes criados pelo indivíduo e grupo. “O comportamento de um animal tende a maximizar a sobrevivência dos genes ‘para’ aquele comportamento, estejam ou não esses genes no corpo do animal específico que o executa”. Seria arbitrário restringir o conceito de fenótipo somente a expressão fenotípica dos genes em seu próprio corpo; a ação/expressão dos genes não se limita ao organismo, mas se estende para o mundo externo e mesmo outros organismos: “[...] o indivíduo que você observa pode estar agindo sob a influência manipuladora de outro indivíduo, talvez um parasita”. Isto torna a básica fórmula biológica “fenótipo = genótipo + ambiente” bastante mais profunda.

Estanislau Alves da Silva é biólogo
e estudante do curso de
Fundamentos da Psicanálise e sua Prática Clínica

Hipóteses patológicas sobre o grupo e a mente

•2012/03/11 • 1 Comentário

O pensar requer muito de cada um. Requer cuidados, requer asas e, algumas vezes, requer
sementes novas e férteis. Esse é o poder da reflexão curta, densa e aguda de Emir Tomazelli:

Hipóteses patológicas sobre o grupo e a mente

Então, se vencermos estes árduos passos iniciais, talvez possamos ver ocorrer de o grão germinar e se inserir num fruto maior”. Esta é a esperança. Este é o gesto que se pode esperar como sendo indicativo da existência de um agrupamento humano bom e capaz de manter o indivíduo nele, permitindo que este indivíduo ainda preserve a própria singularidade. O grupo[1], neste caso, poderia ser uma estufa para os psíquicos recém-chegados, e assim permitiria a cada um crescer, e nele se proteger, se alimentar, evoluindo na jornada.

Porém, temos sempre que recordar que é nos grupos em que os “eus” germinam e se tornam (ou não se tornam) humanos. É nos grupos que, também, estes “eus” testemunham a força para a fusão de todas as individualidades, se tornando uma massa violenta e amorfa.

Isto é, no grupo é possível testemunhar a força devoradora das identidades do próprio agrupamento humano e de como esta ‘devoração’ se soma ao poder de eliminação e de desaparecimento quase completo desses “eus” no interior desses adensamentos humanos que são as civilizações, e que as atuais nebulosas urbanas materializam de forma radical, onde ninguém sabe nada de ninguém, tal é o excesso de tudo que acontece nesse todo.

Se, por outro lado, é no grupo – esse emaranhado de “eus”[2], – em que são chocados os ovos fertilizados da mente humana, é também aí onde eles, por vezes, são ingeridos, servindo apenas para serem eliminados.

Hipóteses a partir da cogitação acima:

O grupo e a esquizofrenia. O bando interno está a solta e o sujeito assustado não sabe o que faz, além de agir sem pensar, ou se congelar, para tentar não ser humano. Retrai-se a tal ponto que só gasta energia para manter-se vivo. O sujeito esquizofrênico aparece ao mundo em pequenos surtos de sanidade em meio ao extenso caminhar na obscuridade. O autoerotismo é uma fragmentação psicótica, tendo o corpo e as zonas erógenas como a base desse despedaçamento.

O grupo e a paranoia. Dois mundos: interno e externo. O externo está repleto de perseguidores, os objetos internos maus foram vomitados, o bando foi vomitado, e o eu, entrincheirado em seu narcisismo destrutivo, vive agarrado aos “objetos idealizados”, fixa-se atrás de fortes paredes – alucinóides e deliróides – que impedem o acesso do estrangeiro ao interior da cidadela do sujeito, ao mesmo tempo que barram o que lá no interior reside. O mundo interno se transforma em urna funerária e mesmo vivo o sujeito permanece soterrado e impedido de perceber o outro.


[1] - “Grupo ao que pertencemos”? O que é isto? Seria um espaço-prisão, um campo de confinamento e de tortura, um lugar, um território repleto de armadilhas? Ou seria um código ao qual se deve submissão? Uma hierarquia, um exercício do hétero sem mediação. O que seria o grupo, um super-superego desumanizado repleto de partículas que se despedaçaram?

[2]Gaburri, Eugenio  ‘Dal gemello immaginario al compagno segreto’. Rivista di psicoanalisi, 32(4):509-20, 1986

Sobre Emir Tomazelli:

Psicólogo, Psicanalista e Professor do Departamento Formação em Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae
Doutor pela USP
Livros publicados:
Corpo e conhecimento – uma visão psicanalítica – Casa do Psicólogo, 1995
Psicanálise: uma leitura trágica do conhecimento – Rosari, 2003

CURSO DE FORMAÇÃO EM PSICANÁLISE

•2011/10/17 • Deixe um comentário

Tem como objetivo a formação de psicanalistas. Transmite a psicanálise em sua especificidade, com base nos três elementos essenciais da formação: análise pessoal, supervisão e estudo crítico da teoria psicanalítica. Desenvolve a escuta clínica levando em consideração os aportes das escolas francesa e inglesa. Trabalha a clinica psicanalítica, desde as descrições clássicas feitas por Freud, até as formas de sofrimento observadas na atualidade.

Destina-se a psicólogos, médicos e outros profissionais com formação universitária com experiência de análise pessoal e com algum percurso na teoria psicanalítica.

O curso regular tem duração mínima de quatro anos  e carga horária  de 731 horas. O curso não inclui estágios.

Os horários concentram-se às quartas-feiras, com média de seis horas/aula semanais e mais uma hora e meia de atividades.

Este curso foi credenciado no Conselho Federal de Psicologia em 31 de janeiro de 2003, para especialização em psicologia clínica, em conformidade com a Resolução CFP 007/01

CORPO DOCENTE:

Armando Colognese Júnior, Cecília Noemi Morelli de Camargo, Durval Mazzei Nogueira Filho, Ede Oliveira Silva, Eliane Michelini Marraccini, Emir Tomazelli, Esio dos Reis Filho, Homero Vetorazzo Filho, José Carlos Garcia, Ligia Valdés Gomez, Maria Beatriz Romano de Godoy, Maria Cristina Perdomo, Maria Helena Saleme, Maria Luiza Scrosoppi Persicano, Maria Teresa Scandell Rocco, Nora Susmanscky de Miguelez, Oscar Miguelez, Suzana Alves Viana e Vera Luíza Horta Warchavchik.

CONTEÚDO PROGRAMÁTICO:

A) Seminários teóricos: Formações do inconsciente; O inconsciente; Pulsões; Narcisismo; As identificações, Neurose obsessiva e histerias; O Complexo de Édipo; M Klein e as raízes do pensamento arcaico; Angústia, superego e Édipo kleinianos; Teoria das posições e inveja; Psicose e perversão em Freud e M Klein.

B) Seminários clínicos.

C) Supervisão individual no 4o ano.

D) Monografia de conclusão de curso, com orientação individual, a ser realizada após a finalização dos seminários teóricos e clínicos.

E) Estágio opcional na Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae, sujeito a seleção e contando com supervisão específica.

F) Formação continuada: atividades extracurriculares no Departamento Formação em Psicanálise.

G) Acompanhamento clínico, opcional para os alunos do 1o ano, no qual se trabalha, em pequenos grupos, a articulação da escuta clinica com os artigos sobre o método psicanalítico.

H) Obrigatoriedade de estar em análise pessoal durante o curso.

Nº DE VAGAS: 30 (trinta)

SELEÇÃO: duas entrevistas individuais, apresentação de curriculum vitae (contendo foto) em duas cópias e um breve texto no qual seja justificada a busca por esta formação, também em duas cópias.

PUBLICAÇÃO DOS RESULTADOS: Fevereiro de 2012

INÍCIO DO ANO LETIVO: Março de 2012

Faça Sua Inscriçãoa partir de Novembro de 2011:

Instituto Sedes Sapientiae

Rua Ministro Godoy, 1484   - fone: 11 3866-2730

www.sedes.org.br

sedes@sedes.org

FUNDAMENTOS DA PSICANÁLISE E SUA PRÁTICA CLÍNICA

•2011/10/17 • Deixe um comentário

Docentes:

Antonio Geraldo de Abreu Filho, Berenice Neri Blanes, Celina Giacomelli, Maria Salete Abrão Nunes da Silva, Maria Tereza Viscarri Montserrat e Patrícia Leirner Argelazi.

Objetivo:

Trabalhar os conceitos que fundamentam a Psicanálise e que servem de alicerce à sua prática. Pretende, com isso, fornecer informações que preencham lacunas a quem algo conheça da psicanálise, e fundamentos a quem a desconhece, estimulando o interesse na continuidade do estudo e permitindo que uma eventual formação sistemática no futuro se faça sobre uma base mais sólida.

Conteúdo programático:

Especificidade da Psicanálise: – Psiquismo e corpo; – Terapias medicamentosas, psicoterapias e Psicanálise.

A Divisão do Sujeito: – Dois conceitos fundamentais: Inconsciente e Pulsão; – Aparelho psíquico: consciente, pré-consciente e inconsciente, o ponto de vista tópico; – O Recalque: desejo, conflito e defesa, pontos de vista dinâmico e econômico; – Discussão clínica.

Formações do Inconsciente: Atos falhos, sonhos e sintomas; Discussão clínica.

Ponto de vista estrutural: Complexo de Édipo / Identificações; Segunda Teoria Tópica.

Neuroses, Psicoses e Perversões: Uma introdução à psicopatologia psicanalítica; Discussão de casos: um estudo comparativo.

Questões da Clínica:  A situação analítica; Transferência e contratransferência; – Resistência; A interpretação.

O Analista: Diferenças entre formação e informação; O tripé da formação analítica: análise do analista, supervisão e estudo da teoria.

Nota: As discussões de casos clínicos, pontuando os conceitos teóricos desenvolvidos no programa, serão apresentados pelos professores.

Duração: um ano,  o segundo ano é opcional.  Candidatar-se à seleção de estágio na Clínica Psicológica do Instituto Sedes Sapientiae, também é opcional para médicos e psicólogos.

N° de vagas: 15 (quinze) alunos por grupo de trabalho.

Horário: Terças-feiras, das 19h30 às 21h30.

Inicio / Duração: um ano, com início em março

Carga Horária: 68 horas.

Seleção: O candidato será submetido a entrevista individual, devendo levar cópia do curriculum vitae. No ato da inscrição, a Secretaria fornecerá o telefone do docente para que a entrevista seja agendada.

INÍCIO DAS INSCRIÇÕES: NOVEMBRO 2011

Adeus amigo Homero.

•2011/09/02 • 5 Comentários

Homero é uma dessas pessoas que não podem faltar como referência a nosso lado profissional e, principalmente, a nosso coração. Não havia Homero sem sorriso, sem acolhimento e ouvidos atentos a cada um. Integridade e ética eram suas marcas mais visíveis e admiráveis. Todos sabemos que o fim é inevitável, mas ele é exatamente o tipo de perda que dá à separação definitiva uma tonalidade de absurdo.
Na missa celebrada em sua memória, um de seus amigos próximos homenageou-o com palavras que reproduzimos abaixo, porque expressam a dor de todos, esse estranho vazio que nos inquieta neste momento:

HERR PROFESSOR PRIVAT DOZENT

Sim, era assim que nos cumprimentávamos quando nos encontrávamos intra ou extra Sedes. Era uma brincadeira tirada dos inícios de Freud quando ele queria atingir aquela condição para tirá-lo da pobreza. Essa brincadeira já durava quase três décadas.
Tínhamos um trajeto profissional muito semelhante. Nos comprometemos através do juramento hipocrático mantermo-nos fiéis à velha senhora, a medicina. Éramos monógamos por natureza até vermos despontar no horizonte uma nova e jovem senhora, a psicanálise. Chamou-nos logo a atenção, talvez até porque a velha senhora não se excedia além do corpo. Ficamos fascinados e deslumbrados com tamanha sedução, talvez querendo utilizá-la para voltar àquela monogamia inicial com mais subsídios. Foi em vão!

Tornamo-nos bígamos por um certo tempo, servindo a duas senhoras ao mesmo tempo. Eu utilizava esta situação fazendo uma outra brincadeira, quando dizia que éramos o Dr. Jekill pela manhã e a partir do meio dia nos transformávamos n’O Monstro. Éramos o médico e o monstro. Ríamos juntos. Com o passar do tempo voltamos a ser monógamos, mas agora com a jovem senhora e jurando fidelidade.
Ah! Tudo isto se foi. Agora sou obrigado a brincar com estas lembranças que estão entranhadas em mim. É duro de roer!
Lembro-me de sua aparência delicada e franzina, que dava a falsa sensação de fragilidade, mas mostrou ser exatamente o contrário. Forte como uma fortaleza aguentou estoicamente, com conhecimento de causa, toda a dor advinda de sua doença inexorável e a dor das perdas que se aproximava no horizonte. Eu teria desmoronado.
Ah! HERR PROFESSOR PRIVAT-DOZENT HOMERO, a onda ou o tsunami ou o furacão ou o destino ou o que quer que seja levou-o para longe de nós. Oh, dor tão dolorosa!
Aí vai a dor do colega e amigo, her professor privat- dozent Ede.

Homenagem de Ede de Oliveira a Homero Vetorazzo Filho

Leituras Kleinianas

•2011/07/22 • Deixe um comentário

É principalmente um espaço de reflexão sobre a teoria na clínica e vice-versa.
Florence Guignard, que faz um trabalho interessante  sobre a metapsicologia kleiniana, começa um dos seus artigos  dizendo: “Minha pergunta é como o espírito vem ao ser humano”.

Vem acompanhada com Meltzer, Bion, partindo de Melanie Klein, e estamos voltados a isso. Ou seja, no momento, o grupo de Leituras Kelinianas dedica-se a essa questão.
Por esse caminho, o grupo é conduzido a pensar a Feminilidade Primária, em Klein, berço tanto do feminino como do pensamento, através do processo da construção do símbolo.
O seminário teórico, que a professora Suzana Alves Viana ministra no segundo ano do curso Formação, foca esta questão e o trabalho que os Acompanhantes Clínicos Kleinianos fazem é refletir como o pensamento nasce, a partir desse banho, antes de tudo sensorial e estético, permeado pela imersão que tem o corpo ( no sentido de um corpo animado) em contato com o mundo.
Nesses dois anos o grupo tem refletido também sobre como é ensinar Melanie Klein e, mais amplamente, o que é ensinar psicanálise num curso de formação.

 
Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.